“Sim. Morrerás em mim” - Miguel Marvilla
Sim, morreste em mim.
E antes cedo que never
Aceito de bom grado o fim.
Morreste em mim.
Sinto-o quando fecho os olhos
E não consigo mais lembrar
As cores do teu sorriso
Ou quando a madrugada me espia
Pintando flores na parede
E chorando de rir.
Morreste em mim.
Constato quando percorro com os dedos
A estante de livros,
Contando os teus e os meus,
Separados por tão pouco.
(Os discos, quase todos, você levou,
Como quem carrega preciosidades,
Histórias de ser feliz. Os livros, não,
Estes ficaram no mesmo lugar,
Cheios de palavras)
Morreste em mim
A janela aberta não percebe mais
A fumaça do teu cigarro
Não há mais jornais espalhados
No chão da sala.
Não tem (nem mesmo) a saudade
Que cansou de esperar
E foi embora.
Só eu fiquei, com esse olhar dos tolos,
Procurando um jeito de preencher esse vazio
Que dói mais que corte de lâmina bem afiada
E nunca nunca sangra.