E se...
(Mária Santos Neves)
Já pensou poder rebobinar a vida? Rewind, reset, voltar atrás, começar de novo.
Dar pause, seguir em frente.
Colocar um freeze nos momentos mais importantes. Paralisar.
Pra poder saborear cada ruguinha do sorriso, cada sinalzinho do rosto.
Já pensou poder congelar a imagem enquanto pensamos se vale a pena prosseguir naquele caminho ou virar em outra direção?
Voar pra Inglaterra ou plantar laranjas em Iconha?
Ter cinco filhos ou uma grande empresa?
Pedir um time break antes de escolher qual vida você quer ter,
como diria aquele antigo compositor: - Pare o mundo que eu quero descer!
Quantas vezes tentei imaginar como seria a vida que não vivi, usando aquela expressão mágica: - E se...
E se ao invés de responder, eu tivesse me calado?
E se ao invés de chorar, eu tivesse sorrido.
Se ao invés de partir, houvesse permanecido?
E se eu tivesse perdoado? E se eu não tivesse esquecido?
Quantas vezes pedi por outra realidade,
como naquele lindo verso de Beto Guedes
- Oh, minha estrela amiga, por que você não fez a bala parar?
Mas a bala não parou. E o sonho acabou.
Já imaginou poder dar rewind antes das torres gêmeas caírem?
Ou mover o relógio para trás antes que alguém insano jogasse
uma linda menina do alto de um prédio?
Bastaria um mísero segundo, uma única e definitiva chance de fazer certo.
Chame de qualquer coisa: a mão de um anjo ou o toque de uma campainha.
Chame de acaso, sorte ou destino.
Chame de obra de Deus.
Saber que o que vai não volta, dói.
Mas é isso que nos dá ainda mais vontade de fazer certo, desta vez.
Porque só existe esta vez.
Só existe esta vida.
A outra, se houver, será a outra.
A que passou, ninguém traz de volta.
Não vai existir outro você.
E já que não dá pra rebobinar, quero poder dizer o que tiver que ser dito.
Amar o que tiver para amar.
Sentir todas as emoções como o Roberto.
Chorar todas as lágrimas de amor, alegria, dor.
Viver, respeitar, errar por inocência e não por vontade - e ser verdadeiramente humana.
Porque não tem jeito de se escrever uma vida nova
e nem há borracha que apague uma vida mal vivida.
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
Sapos
Felizes para sempre
é coisa que não existe
em meu vocabulário
Tenho sede de verdades
e medo gritante de alegrias.
Desconfio de contos de fadas
e crônicas de feiticeiros
e estou mais para bruxa
que Cinderela,
ainda que às vezes
me escape o senso crítico
e eu me descubra sonhando
com abóboras encantadas.
Sou daquelas que ficam sem graça
quando chamadas de bonitas
e pra não entregar meu coação
de mão-beijada,
fujo apressada
antes da meia-noite.
Todos os meus príncipes
revelaram-se vampiros,
castelos, só conheço os de cartas
- e todos desabam no final.
Mas existem noites
dessas assim, de lua cheia,
em que eu sento no parapeito
dajanela
e a rua lá embaixo vira um convite.
Aí eu respiro fundo,
recolho meus sonhos
e desço para a vida,
a procura de mais um
"era uma vez..."
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Antonio
Se em meu segundo parto, não tivesse nascido a Luisa, eu teria tido um Antonio. Antonio teria cabelos claros, cacheados como os de seu irmão mais velho João, quando pequeno.
Ele seria levado e arteiro, na medida certa.
Teria me dado trabalho para começar a ler. Seria fera em Matemática, só para confirmar a máxima de que meninos agitados são bons em números e assassinam o Português.
Antonio teria quebrado o dentinho aos 8 anos tal e qual sua mãe, numa queda na cozinha. E também teria me povoado as noites com perguntas intermináveis que todo filho faz.
Eu teria histórias para contar sobre o segundo filho, aquele que veio sete anos depois do primeiro. Eles dois seriam os melhores inimigos durante cinco ou seis anos, para depois se tornarem inimigos cordiais na adolescência.
Antonio teria quebrado o dentinho aos 8 anos tal e qual sua mãe, numa queda na cozinha. E também teria me povoado as noites com perguntas intermináveis que todo filho faz.
Eu teria histórias para contar sobre o segundo filho, aquele que veio sete anos depois do primeiro. Eles dois seriam os melhores inimigos durante cinco ou seis anos, para depois se tornarem inimigos cordiais na adolescência.
Talvez, se Antonio chegasse, João não se sentisse tão solitário dentro de casa. Talvez ele tivesse com quem dividir seus medos e dúvidas. Ou se sentiria importante quando o irmão lhe fizesse perguntas sobre meninas e puberdade.
Talvez Antonio esfolasse os joelhos jogando futebol na quadra do prédio, ao contrário do irmão que esfola os dedos no teclado do computador. Talvez ele nem ligasse muito para mim, preferindo a companhia de seus cachorros. Sim, meu filho Antonio talvez me convencesse a ter cachorros dentro de um pequeno apartamento, coisa que a doçura da Luisa nunca conseguiu.
Talvez Antonio esfolasse os joelhos jogando futebol na quadra do prédio, ao contrário do irmão que esfola os dedos no teclado do computador. Talvez ele nem ligasse muito para mim, preferindo a companhia de seus cachorros. Sim, meu filho Antonio talvez me convencesse a ter cachorros dentro de um pequeno apartamento, coisa que a doçura da Luisa nunca conseguiu.
Talvez eu tivesse ainda menos tempo para mim, ter dois meninos em casa não é moleza. Principalmente quando um tivesse 16 e outro 9.
Eu poderia colocar os dois no mesmo quarto por muito tempo, até que os carrinhos e soldadinhos de Antonio estivessem bagunçando a ordem desarrumada de João formada de CDs e fones de ouvido.
Talvez, tarde da noite eu passasse pelo quarto dos meninos e ouvisse ruídos de risadas abafadas lá dentro, enquanto a paz reinasse do lado de fora.
E um estivesse contando para o outro como foi o seu dia.
Eu agradeceria a Deus por Antonio existir, assim como eu agradeço, todos os dias por João e por Luisa.
Se meu segundo filho fosse menino, eu teria um Antonio em minha vida. Nome do santo casamenteiro, do poeta dos escravos e do maior maestro que o Brasil já teve.
Mas Antonio dorme nas lembranças daquele que nunca veio. E a mãe que nunca foi sua, imersa em lembranças que nunca teve, esboça hoje um meio sorriso e lhe manda um beijo de boa noite.
terça-feira, 24 de maio de 2011
Pelos olhos dela
Aprendi a ver o Piu pelos olhos da Lu. Ela o chamava de meu Piuzinho, minha bolinha amarela. Eu dizia que ele era uma geminha de ovo.
E falávamos do amor dela por esse passarinho que surgiu em sua vida quando fugiu da gaiola de alguém. Luisa nunca havia tido um bichinho e se encantou com a novidade. Compra gaiola, compra ração, compra até uma companheira para o bichinho – desta vez uma fêmea branquinha, a Princesa, que nós dizíamos ser uma bolinha de neve.
Com o tempo, a Princesa virou Prin e o casalzinho passou a dividir as atenções da Luisa.
- Mãe, faz silêncio que o Piu e a Prin vão dormir...
- Piu e Prin estão com fome...
- Mãe, o Piu é tão fofinho né ? A Prin é mais séria. Ela não gosta de ficar muito tempo na minha mão. O Piu, não, ele é mansinho.
De vez em quando os pássaros ficavam na casa da avó e ela chorava de saudades. Vez ou outra me dizia:
- Mãe, te amo tanto! Mas eu amo mais o Piu.
E quando eu fingia que estava chateada com a sinceridade, ela explicava:
- Mas, mãe, é que ele é tão pequenininho...
Há uns dias, seus olhos se encheram de lágrimas. Ela me disse:
- Mãe, um dia o Piu vai morrer... Eu não quero que ele morra.
Eu disse a ela que ele ainda era novinho, mas que todo serzinho morre um dia. Ela ficou pensativa.
Hoje o Piu fugiu da gaiola. Fugiu não se sabe pra onde. Um canarinho que mal sabe voar. Chorei copiosamente, lágrimas pesadas e quentes. Por causa de um passarinho? Não. Só entendi depois.
Eu chorei as lágrimas da Luisa.
As palavras
A tela em branco do computador olha para mim inquisitiva. Falta uma palavra. Uma única palavra e a falta dela é um vazio sem tamanho.
Palavras, por menores que sejam, são repletas de significados. E sua existência torna a vida mais interessante.
Algumas palavras caem como uma luva, ditas ao pé da letra. Outras, descem quadradas, feito nó na garganta.
Palavras em geral trazem lembranças, remetem a cheiros, transportam a lugares.
Palavras têm vida. Saudade por exemplo, é uma palavra triste. Como suspiro ou soluço. Já melancolia é tão doída, que faz brotar lágrimas nos olhos. Quem tem melancolia está cheio de vazio. E existe palavra mais solitária do que zelador?
Confiança é uma palavra aconchegante. Feito abraço, que também é uma palavra quente.
Existem palavras que têm sabor, como baunilha, doce-de-leite. E outras que sussurram, como brisa e vento-sul.
Existem palavras gorduchas feito abóóóóbora. Ou esguias como figo.
Emoção é uma palavra gostosa, que enche a boca e deixa repleto um coração. Poesia é uma palavra pequenina, que se torna grande porque carrega junto uma porção de Carlos, Manuéis, Cecílias, Adélias e Mários.
Sempre tive fascínio por proparoxítonas. Nada mais elegante do que dizer: “as têmporas do pároco ficaram lívidas.”
A palavra sabedoria lembra antigos professores, com óculos de lente grossa A palavra respeito, silenciosa e forte, anda junto com a palavra autoridade. Mas nem sempre quem tem autoridade merece respeito.
Quando criança eu adorava palavras duplas, como pé-de-moleque, faz-de-conta, arco-íris. Até hoje, elas me soam fascinantes. Palavras também têm cheiro: sabonete é uma palavra cheirosa, assim como café, que também lembra casa da avó. Existem palavras que ensinam muito: unir, perdoar e compartilhar, que, singelamente, quer dizer: partilhar com alguém. Nenhuma palavra conforta tanto como amigo. Ou dói tanto quanto lágrima. Assim como não tem palavra mais arrebatadora do que paixão.
Paradoxo é uma palavra contraditória. Traz o sim e o não juntinhos.
Crianças geralmente têm medo de palavras pesadas como castigo e bicho-papão. Quando a gente cresce o bicho-papão vira uma palavra mais complicada: responsabilidade.
Crianças geralmente têm medo de palavras pesadas como castigo e bicho-papão. Quando a gente cresce o bicho-papão vira uma palavra mais complicada: responsabilidade.
A tela do computador continua pedindo uma palavra. Aquela que ainda não foi dita e que represente tudo o que escrevi até agora. Mas percebi que tudo é uma palavra muito ampla - quem tem tudo, não precisa de mais nada. E o bom da vida é a gente precisar.
Palavras, por menores que sejam, são repletas de significados. E sua existência torna a vida mais interessante.
Algumas palavras caem como uma luva, ditas ao pé da letra. Outras, descem quadradas, feito nó na garganta.
Palavras em geral trazem lembranças, remetem a cheiros, transportam a lugares.
Palavras têm vida. Saudade por exemplo, é uma palavra triste. Como suspiro ou soluço. Já melancolia é tão doída, que faz brotar lágrimas nos olhos. Quem tem melancolia está cheio de vazio. E existe palavra mais solitária do que zelador?
Confiança é uma palavra aconchegante. Feito abraço, que também é uma palavra quente.
Existem palavras que têm sabor, como baunilha, doce-de-leite. E outras que sussurram, como brisa e vento-sul.
Existem palavras gorduchas feito abóóóóbora. Ou esguias como figo.
Emoção é uma palavra gostosa, que enche a boca e deixa repleto um coração. Poesia é uma palavra pequenina, que se torna grande porque carrega junto uma porção de Carlos, Manuéis, Cecílias, Adélias e Mários.
Sempre tive fascínio por proparoxítonas. Nada mais elegante do que dizer: “as têmporas do pároco ficaram lívidas.”
A palavra sabedoria lembra antigos professores, com óculos de lente grossa A palavra respeito, silenciosa e forte, anda junto com a palavra autoridade. Mas nem sempre quem tem autoridade merece respeito.
Quando criança eu adorava palavras duplas, como pé-de-moleque, faz-de-conta, arco-íris. Até hoje, elas me soam fascinantes. Palavras também têm cheiro: sabonete é uma palavra cheirosa, assim como café, que também lembra casa da avó. Existem palavras que ensinam muito: unir, perdoar e compartilhar, que, singelamente, quer dizer: partilhar com alguém. Nenhuma palavra conforta tanto como amigo. Ou dói tanto quanto lágrima. Assim como não tem palavra mais arrebatadora do que paixão.
Paradoxo é uma palavra contraditória. Traz o sim e o não juntinhos.
Crianças geralmente têm medo de palavras pesadas como castigo e bicho-papão. Quando a gente cresce o bicho-papão vira uma palavra mais complicada: responsabilidade.
Crianças geralmente têm medo de palavras pesadas como castigo e bicho-papão. Quando a gente cresce o bicho-papão vira uma palavra mais complicada: responsabilidade.
A tela do computador continua pedindo uma palavra. Aquela que ainda não foi dita e que represente tudo o que escrevi até agora. Mas percebi que tudo é uma palavra muito ampla - quem tem tudo, não precisa de mais nada. E o bom da vida é a gente precisar.
Cheirinho de Luisa
Hoje tudo que eu quero é sentir o cheirinho da Luisa. Cheiro de mochila de escola. De estojo e lápis-de-cor. De batom de tutti-frutti misturado com gelatina Royal.
Troco um dia cansado pelo cheirinho renovado do sorriso da Luisa. Cheiro de boneca Barbie e de ursinho Pooh. Cheiro de pijama de bolinha e chinelo da Moranguinho.
Hoje eu troco todos os meus perfumes por um cheirinho de boca suja de sorvete. Cheiro de jogo da memória. Ou de pique-pegador. Cheiro de suor escorrendo pelos cabelinhos cstanhos com fivela amarela. Cheiro de medo do escuro.
Troco meu Givenchy de frasco exótico pelo cheiro do caderno novo aberto na primeira página. Ou do uniforme azul e branco manchado de refri. Hoje tudo o que eu quero é sentir o cheirinho do pé descalço da Luisa. Sua coragem diante do futuro, sua sem cerimônia diante do mundo. E assim eu me transportaria para o jardim da minha infância para, quem sabe, trazer a criança que eu fui, pra brincar com ela antes de dormir.
Troco um dia cansado pelo cheirinho renovado do sorriso da Luisa. Cheiro de boneca Barbie e de ursinho Pooh. Cheiro de pijama de bolinha e chinelo da Moranguinho.
Hoje eu troco todos os meus perfumes por um cheirinho de boca suja de sorvete. Cheiro de jogo da memória. Ou de pique-pegador. Cheiro de suor escorrendo pelos cabelinhos cstanhos com fivela amarela. Cheiro de medo do escuro.
Troco meu Givenchy de frasco exótico pelo cheiro do caderno novo aberto na primeira página. Ou do uniforme azul e branco manchado de refri. Hoje tudo o que eu quero é sentir o cheirinho do pé descalço da Luisa. Sua coragem diante do futuro, sua sem cerimônia diante do mundo. E assim eu me transportaria para o jardim da minha infância para, quem sabe, trazer a criança que eu fui, pra brincar com ela antes de dormir.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Um bebê que nasce.
Um bebê que nasce é uma folha de papel em branco.
Nele nada foi escrito.
Não foi marcado por histórias. Não teve sorrisos ou lágrimas.
Ainda não descobriu que o mundo é lindo como uma flor cheia de orvalho.
E feio como a fome.
Um bebê que nasce ainda não foi marcado por frustrações e alegrias.
Ainda não teve a oportunidade de sentir que abraço de mãe é gostoso pra caramba, quando se tem medo do escuro.
E que mãe pegando no pé por causa do primeiro namorado também pode ser muito, muito chato.
Um dia irá entender– com misto de surpresa e decepção - que ele não é a única pessoa do universo. E que nem sempre um simples chorinho vai conseguir realizar os incontáveis desejos que terá ao longo da vida.
Mais do que isso, vai descobrir que existe um mundo além do seu umbigo.
E que nele não vem pregado um sorriso benevolente de mãe.
Um dia ele chegará à conclusão de que o mundo não é assim tão fácil de se conquistar.
E que não basta apertar um botão e – click – tudo voltou ao que era antes.
Irá se surpreender ao ver que tempo perdido é (mesmo) tempo que não volta mais.
Lembrará com saudades de seus joelhos ralados exatamente quando começar a sentir aquela dorzinha nas costas na hora de levantar da cama.
Um dia olhará nos olhos de outro bebê e lembrará que um dia já foi pequeno assim e que não conseguiu ainda virar adulto mesmo depois dos 50 anos.
Um bebê que nasce ainda não folheou nenhuma página de sua vida.
Não aprendeu, não errou, mas também não acertou.
Para ele tudo (ainda) é aceitável e desculpável.
Mesmo derrubar o pratinho de sopa no chão ou rabiscar de caneta colorida a parede do quarto.
Ainda não sentiu dores, a não ser aquela da primeira golfada de ar.
Não sentiu ainda o coração bater apertado quando o filho vai pra escola pela primeira vez. E também não sabe que estranha cumplicidade o fará entender seu pai somente no dia em que tiver seu próprio filho.
Certamente ele no futuro descobrirá algum talento, irá se vangloriar dos acertos, esconder os fracassos, contar vantagens e mentiras. Terá dores de cabeça e de cotovelo. Talvez quebre o dente pulando sela ou talvez nunca descubra o prazer de tirar fruta do pé.
Um bebê que nasce é um livro onde o mundo não escreveu uma palavra sequer.
Mas quantas e infinitas possibilidades se delineiam em seu primeiro olhar.
NASCIMENTO
Eu estava naquele ambiente asséptico, com paredes brancas, teto branco, tudo branco. Olhava para cima e via apenas uma lâmpada muito clara. Diante de mim, um pano verde, uma espécie de cortina, eu deitada e do pescoço para baixo, a vida cumprindo seu curso. Eu estava ali para receber um presente: meu primeiro filho. Tanta coisa passa na cabeça da gente nesse momento. Até chegar ali tudo tinha sido uma festa. A barriga crescendo mês a mês, a ansiedade também. Mais azia, mais medo, mais dúvidas, mais alegrias. Tudo mais, sempre cada vez mais. Eu tinha falado tanto com aquele serzinho, tantas vezes ao dia. Tinha me emocionado incontáveis vezes ao imaginá-lo crescendo dentro de mim, sentindo o primeiro comichão que dizia que ele estava vivo. Eu tinha amado tanto aquele ser que nem ao menos conhecia. E era tão forte aquele sentimento, que naquele momento tudo se multiplicou por mil.
Em poucos segundos ele estaria para sempre em minha vida. Nunca mais eu seria sozinha. Nunca mais seria só eu. Eu era mãe. Os movimentos da cesárea, médicos e enfermeiras cumprindo os procedimentos corriqueiros, nada disso tirou o brilho do momento mais importante da minha vida; senti um puxão mais forte e logo meu filho já estava ali. Foi nesse momento em que o médico trouxe o bebê lourinho, com a cara amassada,de olhos fechadinhos, e encostou em meu rosto para que eu o sentisse. Chorei de emoção. Rapidamente ele foi levado de mim para ser examinado e então pude ouvi-lo aos berros pelos corredores, gritando a plenos pulmões como se dissesse: - Estou vivo! Estou vivo! Eu fiquei ali um tempo depois, esperando a anestesia passar, ouvi as enfermeiras falando, falando ao meu lado, meio entorpecida, nada sentia. Mas tinha minha alegria particular: eu agora sabia a razão pela qual eu viveria dali para frente: para amá-lo.
Em poucos segundos ele estaria para sempre em minha vida. Nunca mais eu seria sozinha. Nunca mais seria só eu. Eu era mãe. Os movimentos da cesárea, médicos e enfermeiras cumprindo os procedimentos corriqueiros, nada disso tirou o brilho do momento mais importante da minha vida; senti um puxão mais forte e logo meu filho já estava ali. Foi nesse momento em que o médico trouxe o bebê lourinho, com a cara amassada,de olhos fechadinhos, e encostou em meu rosto para que eu o sentisse. Chorei de emoção. Rapidamente ele foi levado de mim para ser examinado e então pude ouvi-lo aos berros pelos corredores, gritando a plenos pulmões como se dissesse: - Estou vivo! Estou vivo! Eu fiquei ali um tempo depois, esperando a anestesia passar, ouvi as enfermeiras falando, falando ao meu lado, meio entorpecida, nada sentia. Mas tinha minha alegria particular: eu agora sabia a razão pela qual eu viveria dali para frente: para amá-lo.
Pedra
Queria renascer pedra.
Pedra não se move, não se comove.
Não chora de amor.
Pedra não sente frio nem calor.
Não alimenta expectativas que não se cumprem.
Pedra fica paradinha lá, vendo o tempo passar.
Pedra, aliás, tem todo o tempo do mundo.
Pedra não sente culpa, não sente o coração
esmigalhado de remorso.
Não tem que acordar de manhã
sem vontade de sair da cama.
Não sente dor de barriga.
nem pega trânsito engarrafado.
Não engole amor mal temperado.
Pedra não precisa pensar, nem agir.
Não tem contas a pagar nem dívidas a acumular.
Não tem que fazer escolhas de Sofia.
Pedra é pedra. E ponto.
Pedra não magoa ninguém, nem se deixa ferir.
Sua rotina não muda no entra e sai dos dias.
E – suprema dádiva -
jamais conhecerá a dor de viver.
Pedra não se move, não se comove.
Não chora de amor.
Pedra não sente frio nem calor.
Não alimenta expectativas que não se cumprem.
Pedra fica paradinha lá, vendo o tempo passar.
Pedra, aliás, tem todo o tempo do mundo.
Pedra não sente culpa, não sente o coração
esmigalhado de remorso.
Não tem que acordar de manhã
sem vontade de sair da cama.
Não sente dor de barriga.
nem pega trânsito engarrafado.
Não engole amor mal temperado.
Pedra não precisa pensar, nem agir.
Não tem contas a pagar nem dívidas a acumular.
Não tem que fazer escolhas de Sofia.
Pedra é pedra. E ponto.
Pedra não magoa ninguém, nem se deixa ferir.
Sua rotina não muda no entra e sai dos dias.
E – suprema dádiva -
jamais conhecerá a dor de viver.
terça-feira, 19 de abril de 2011
Pra início de conversa.
Se alguém me perguntasse o que eu não deixaria de levar para uma ilha deserta, a resposta viria rápida: lápis e papel. Sem eles, não registraria a vida, ficaria faltando a memória. Sem eles, não mandaria mensagens, seria como não respirar.
É assim que eu me sinto, mesmo em tempos de computador, internet, blogs, onde a escrita ganhou a frieza das teclas, numa tela branca de um moderno monitor. Não, eu não abro mão de lápis e papel. Do meu caderninho de notas, meu Moleskini, minhas folhas de Chamex, qualquer coisa que me caia nas mãos que me auxilie na hora de deixar o texto escorrer da cabeça para o papel. Surgiu daí a ideia do Cabeça de Papel.
Assim, aproveito pra deixar a brincadeira entrar neste blog, marchando feito soldadinho – de brinquedo. Cabeça de Papel é um pouco aquela cabeça de vento, mente que não para de inventar, de pensar, de imaginar, que não pode ver uma cena bonita que já quer fazer poema. Como dizia uma amiga: - Você não pode ver um Word aberto, que já quer sair digitando.
Nessa Cabeça de Papel passa de tudo um pouco: literatura, cinema, cotidiano, arte, sonhos, brincadeiras, mas principalmente poesia. Tentarei registrar aqui como vejo a vida. Como ela é. Ou deveria ser. Vamos às palavras.
É assim que eu me sinto, mesmo em tempos de computador, internet, blogs, onde a escrita ganhou a frieza das teclas, numa tela branca de um moderno monitor. Não, eu não abro mão de lápis e papel. Do meu caderninho de notas, meu Moleskini, minhas folhas de Chamex, qualquer coisa que me caia nas mãos que me auxilie na hora de deixar o texto escorrer da cabeça para o papel. Surgiu daí a ideia do Cabeça de Papel.
Assim, aproveito pra deixar a brincadeira entrar neste blog, marchando feito soldadinho – de brinquedo. Cabeça de Papel é um pouco aquela cabeça de vento, mente que não para de inventar, de pensar, de imaginar, que não pode ver uma cena bonita que já quer fazer poema. Como dizia uma amiga: - Você não pode ver um Word aberto, que já quer sair digitando.
Nessa Cabeça de Papel passa de tudo um pouco: literatura, cinema, cotidiano, arte, sonhos, brincadeiras, mas principalmente poesia. Tentarei registrar aqui como vejo a vida. Como ela é. Ou deveria ser. Vamos às palavras.
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