quarta-feira, 25 de maio de 2011

Antonio

Se em meu segundo parto, não tivesse nascido a Luisa, eu teria tido um Antonio.  Antonio teria cabelos claros, cacheados como os de seu irmão mais velho João, quando pequeno. 
Ele seria levado e arteiro, na medida certa. 
Teria me dado trabalho para começar a ler. Seria fera em Matemática, só para confirmar a máxima de que meninos agitados são bons em números e assassinam o Português.
Antonio teria quebrado o dentinho aos 8 anos tal e qual sua mãe, numa queda na cozinha. E também teria me povoado as noites com perguntas intermináveis que todo filho faz.
Eu teria histórias para contar sobre o segundo filho, aquele que veio sete anos depois do primeiro. Eles dois seriam os melhores inimigos durante cinco ou seis anos, para depois se tornarem inimigos cordiais na adolescência. 
Talvez, se Antonio chegasse, João não se sentisse tão solitário dentro de casa. Talvez ele tivesse com quem dividir seus medos e dúvidas. Ou se sentiria importante quando o irmão lhe fizesse perguntas sobre meninas e puberdade.
Talvez Antonio esfolasse os joelhos jogando futebol na quadra do prédio, ao contrário do irmão que esfola os dedos no teclado do computador. Talvez ele nem ligasse muito para mim, preferindo a companhia de seus cachorros. Sim, meu filho Antonio talvez me convencesse a ter cachorros dentro de um pequeno apartamento, coisa que a doçura da Luisa nunca conseguiu. 
Talvez eu tivesse ainda menos tempo para mim, ter dois meninos em casa não é moleza. Principalmente quando um tivesse 16 e outro 9. 
Eu poderia colocar os dois no mesmo quarto por muito tempo, até que os carrinhos e soldadinhos de Antonio estivessem bagunçando a ordem desarrumada de João formada de CDs e fones de ouvido. 
Talvez, tarde da noite eu passasse pelo quarto dos meninos e ouvisse ruídos de risadas abafadas lá dentro, enquanto a paz reinasse do lado de fora. 
E um estivesse contando para o outro como foi o seu dia. 
Eu agradeceria a Deus por Antonio existir, assim como eu agradeço, todos os dias por João e por Luisa. 
Se meu segundo filho fosse menino, eu teria um Antonio em minha vida. Nome do santo casamenteiro, do poeta dos escravos e  do maior maestro que o Brasil já teve. 
Mas Antonio dorme nas lembranças daquele que nunca veio. E a mãe que nunca foi sua, imersa em lembranças que nunca teve, esboça hoje um meio sorriso e lhe manda um beijo de boa noite.

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