quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Despedaços



(Mária Santos Neves) 

Nasci inteira
Cabeça, tronco, membros
e vontade.
Alma feita.
Com desejos, cresci.
Nas primeiras paixões,
me desfiz.
A cada aventura,
des-pedaços de mim.
O amor chegou
caladinho,
fizemos filhos.
Mas trouxe também
desatinos,
saiu dos trilhos.
Beirou  a loucura,
deslúcido.
Da calmaria
à baixaria,
deixei de ser maria.
Perdi as estribeiras,
o senso e a razão,
escolhi a solidão.
O amor de ontem vem e vai,
nao ata nem desata.
Mas talvez seja assim,
desfeita,
o meu jeito de ser completa.



Terceiro Ato

Porque já não escrevo você nos meus poemas, nem leio nossa história em livros de bolso.
Porque não me deito mais com você em meus sonhos de quarto e nem te vejo passeando pelo teto em noites de chuva.
Porque o cheiro do teu perfume se perdeu no mofo da gaveta onde eu guardava as camisolas vermelhas.
Porque nós viramos uma rotina vazia de pasta de dente e shampoo.
Porque há 10 anos tenho apenas 28 e há muito tempo engravido de sonhos.
Porque hoje é segunda feira e o sol não apareceu.
Porque que hoje é segunda-feira e sábado não aconteceu.
Porque hoje é segunda-feira e a cama não nos recebeu.
Porque a descida da montanha russa é impiedosa e cruel e tenho medo que o meu coração me abandone antes do fim.
Porque eu ando meio desgostosa, contrafeita e sombria.
Porque fui fada cigana amélia medeia ninfa helena perséfone juno e nenhuma delas você amou, recolho vestes e plumas, terços, meias, lenços e laços.
E me recomponho, majestosa, para o terceiro e último ato.

Ele

Ele chegou tarde,
no fim da mocidade
e me deu senso de realidade.

Falou de astros,
 planetas,
teoria da evolução
e física quântica.
Quando disparou
a falar de amor,
levei um susto.
Desde quando intelectual
sabe essas coisas?

Ele foi além,
abriu as portas de mim,
colocou dentro o desejo
crescente.
Plantou-me asas.
juntou pedaços,
me fez inteira.
Mulherzinha e poeta.
Dos  cacos
fez um mosaico
de mim.


 Foi ele que me fez assim.