Eu queria escrever uma longa carta pra você não
ler. Não porque você não saiba ler. Não porque você não tenha olhos ou coração
para entender. E sim, porque a carta que eu escreveria não precisaria de palavras.
Eu queria escrever uma longa carta pra você sentir.
Nela, eu colocaria os sorrisos que guardei, nos
milhões de segundos em que te amei. Colocaria as lágrimas que me caíram dos
olhos, de felicidade, de tristeza, de angústia, medo. De tudo isso junto, por
saber que você existia. Por entender que
sua existência seria essência em minha vida.
Enquanto vida eu tivesse, e mesmo quando eu não mais existisse.
Eu queria escrever uma longa carta pra você não
ler. Nela, eu tentaria não ser piegas, nem exagerar nos ”eu te amo”, na voz
melosa ou no olhar doce. Evitaria pegar nos seus cabelos – o que você detesta. Ou
mesmo te dar um abraço, meu filho, porque amor não se pede, não se implora.
Amor se dá. Amor é doar.
Nesta carta, sem pieguice eu lembraria a
primeira vez que eu te vi – e você tinha os olhos fechadinhos, quando pude te
sentir a face colada à minha, numa cama impessoal de hospital, antes de
enfermeiras o levarem, berrando a plenos pulmões como a dizer – Estou vivo!
Eu lembraria como foi o tempo mais feliz da
minha vida em que eu te vi crescer, junto com a penugem dourada de seus
cabelos, e de como você era tão bonito que te chamavam de Bebê Johnson´s.
Também recordaria o quanto nos meses seguintes, eu mal conseguia carregar
aquela criança enorme em meus braços. Dos seus cabelos lourinhos, crescendo em
cachos até os ombros, e eu feliz de ter você. De ter o privilégio de ser sua
mãe.
Eu queria escrever uma longa carta, meu filho,
que nem chegasse aos seus olhos, pra não te turvar a vista.
Não colocaria nela nem fotos, nem aromas, nem
cores. Nas páginas vazias, sentimento. Eu não me faria de vítima nem heroína,
de mãe dedicada ou sofrida, nem me justificaria com noites mal dormidas e um
monte de boas intenções.
Prefiro me lembrar de mim mesma, mãe-menina,
daquela que se sentava diante da TV junto com você assistindo um desenho
qualquer ou aquela que vibrava e ria com séries de TV que você mal entendia.
Lembraria aquela mãe que cochilava vendo um filme, enquanto você dizia: -
Acorda, mãe. Você está perdendo.
Ouvir você me chamar de mãe. Como era bom.
Na carta não poderia faltar o seu olhar esperto
de bebê, reconhecendo marcas nos letreiros e comerciais de TV, ou cantarolando
Beatles com seu pai.
Mas não mencionaria a sua insegurança ao ser
deixado na creche pela primeira vez. Nem dos meses seguintes em que se agarrava
às minhas pernas com medo que eu fosse embora.
Colocaria sim, na carta, a sua facilidade quando
aprendeu a ler, sua alegria em folhear gibis. Mas esconderia aquela dificuldade
em escrever, com as letras cursivas subindo pelas páginas. Não escreveria na
carta o quanto eu percebia que ir para a aula não era a melhor coisa do mundo
para você. Mas colocaria sim, a sua felicidade em conviver com os poucos colegas
que elegeu para amar.
Jamais recordaria a tensão que era para você,
fazer os deveres de casa e como uma simples redação o deixava em pânico. Mas não esqueceria aquele nosso momento em
que você trazia a prova dobrada da escola pra eu não ver a nota e eu ia relendo
todas as questões e somando pra chegar ao resultado, que comemorávamos, porque,
quase sempre, era uma nota boa!
Eu colocaria na carta as brigas que comprei na
escola pra te defender quando você ficava meio “viajante” nas aulas e eu
pensava que você não era entendido em sua grandeza.
E escreveria nessa carta sem palavras aquele
dia em que você, do nada, olhou pra mim e disse que meu sorriso era “o mais
bonito do mundo”.
Essa lembrança, filho, faz nascer lágrimas nos
meus olhos.
Eu sei que você está em algum lugar dentro de si
mesmo, sei que você ainda é meu filho e, de alguma forma, me ama. Só não sei
que caminhos percorremos e o quanto até hoje nos perdemos para chegar aonde não
chegamos.
Eu te pediria desculpas pelo meu cansaço, pela
luta sem certezas. Eu te pediria desculpas pelos atalhos que não deram em nada.
Pela sua saúde incerta, que a cada dia te prega uma peça, uma alergia
incurável, uma dor inexplicável, um suor que vem e vai, um frio que não acaba.
Eu não tenho essas respostas, meu filho, para as perguntas que você faz. Como
não entendo como pode você ser tão menino aos 18 e tão homem aos 18. Que
mistério se encerra nesse ser humano tão apaixonante que você é – e tão difícil
também.
Sei que nos perdemos de nós e sei que muitas vezes
você não conseguiu me amar. E que muitas vezes não consegui te fazer entender
que brigar com você, que discordar de você ou tentar colocar limites em algum
momento de sua vida nunca quis dizer que não amo você.
Justamente porque te amo,
nunca pude somente te amar e deixar a vida correr. Justamente porque te amo, eu
precisei agir. Certo ou errado. Com sucesso ou não.
Em algum momento da adolescência, meu anjo, nos
afastamos e não consigo encontrar o caminho de volta, embora continue
procurando por ele ao te desejar boa noite.
Como mãe desajeitada que sou, eu bem queria
traçar todo seu caminho e te proteger, pra te impedir de sofrer, ainda hoje,
com seu jeitão de garoto, medroso que é, ainda para atravessar a rua. E a sua
mania de ser autêntico em tudo, que te impede de abrir a guarda para a maioria
das pessoas. Ainda insisto em tirar fotos suas, tentando reunir a família
feliz, mas nelas você não sorri. Não gosta de se ver exposto. E agora eu
entendo por quê. Talvez agora finalmente eu tenha percebido, meu filho, o medo
que você às vezes sente do mundo. E talvez seu “não sorrir” seja uma forma de
aprender a não chorar.
Eu sei que errei muito com você, por
ignorância, por medo, por excesso de amor – não por falta. E sei que te magoei
muitas vezes. Mas esta carta não vai além do necessário para que te diga sem
palavras: Eu te amo, eu te amo, e estou aqui. E jamais deixei ou deixarei de estar.
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