sábado, 5 de agosto de 2023

Todos os bares (Mária Santos Neves)

 

À noite todos os bares são iguais

Neuróticos caleidoscópios.

Em volta das mesas,

movimento.

Incontáveis garrafas de cerveja

Que levam à incontida urina

No banheiro fétido

O velho espelho

à espera do batom.

E em seguida nova investida

em outro solitário olhar.

 

À noite, todos os bares são iguais

Epidêmicos e

paranoicos.

Quebra-cabeças de gente

Em busca de se encaixar.


Adiante um belo

vestido negro

À caça de um blazer marinho

Olhares furtivos

Novos motivos

Para se achegar.


Ali ao lado, um relógio casado

Se envolve com

um xale indiano solteiro

e debaixo da mesa,

Um all star 

Com jeito de não estar

Seduz o scarpin dourado

Que se deixa tocar

Na mesa vizinha,

O guardanapo de papel

Manda recado

E adiante a coca cola

Brinda com a tulipa de chopp

Enquanto  o vinho branco

Enrubece de tesão

Um cigarro beija os lábios

Da fêmea no cio

Enquanto o macho ao lado

Esquece a angustia

Com uísque on the rocks.


Logo mais,  a ordem se

Inverte

E o caleidoscópio humano

Se embaralha

Para uma nova caça.

À noite todos os gatos são pardos

E todos os bares são parcos

Lugares de se encontrar.

E o caleidoscópio continua a girar

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