sexta-feira, 4 de agosto de 2023

 

Para Rita, antes de sua partida

 

Algumas pessoas descobrem sobre a finitude da vida mais cedo.

Outras, não. Passam anos acreditando que o futuro está bem longe. Assim como Renato Russo, alguns, como eu, acreditam que que temos todo o tempo do mundo. Mas no fim, todos alcançamos a certeza de que viver é breve, é um sopro, é um suspiro.

Assim, me sinto agora, diante do imutável. A certeza de que nada é eterno e você, “que me deu a ideia de uma consciência e juventude” um dia vai nos dizer adeus.

E tudo me remete àquela tarde de fins dos anos 70. Eu, aos 13 anos, você, com quase 30, chegando para tocar no Ginásio Wilson Freitas, junto com seu padrinho e amigo Gilberto Gil.

Sim, o primeiro show a que assisti foi o seu. E naqueles idos de 70, coube a minha mãe, sem saber o que fazer para deixar uma garotinha assistir a um show de rock, pedir a uma tia avó que nos levasse! E lá estava eu, junto com uma prima e uma amiga, todas menores de idade, acompanhadas de uma senhorinha, assistindo ao primeiro show de rock da minha vida: Refestança.

Uma sensação inexplicável de pertencimento a uma juventude inquieta que elegera como representante uma jovem de cabelos de fogo e penetrantes olhos azuis, que cantava e dançava como queria, dizia o que pensava, sem se importar com padrões da época. Eu já tinha então uns 4 LPs da que seria chamada de Rainha do Rock (rótulo que você nem gostava), dois dos quais considero lendários e os melhores de sua carreira: Fruto Proibido e Entradas e Bandeiras, com letras de sua autoria com parceiros importantes como Lee Marcucci e Paulo Coelho.

Quantas águas rolaram desde aquele longínquo show de 1977. Você, que já tinha um filho, teve mais dois, com seu parceiro de vida, Roberto de Carvalho. Dominaram a cena musical por décadas, embalando nossos momentos com pop, rock e baladas. Tornou-se (quase) uma unanimidade nacional. Porque toda unanimidade é burra, já dizia Nelson Rodrigues e você, jamais se adequaria à ignorância.

Vestindo fantasias, tirando a roupa, jogando lança-perfume, dançando como Luz del Fuego, com esse tal de roque enrow, tudo o que você queria era levar uma vida sossegada. Mas sossegada foi exatamente o que você nunca foi.

Se em suas músicas, com o tempo, você deixou de ser tão roqueira e chegou a admitir  “ai de mim que sou romântica”, na vida continuou contestadora, rebelde e jovial.

Não haverá na cena musical brasileira outra Rita Lee.

Como você cantou há tantos anos, hoje somos nós que descobrimos como é estranho ser humano nessas horas de partida. E como mutante que você sempre foi, desejo que siga sua vida, fora dos palcos, com sombra e água fresca, a bênção dos deuses e deusas e toda a sua adorável irreverência. Até qualquer dia, Lovely Rita. Você será sempre nossa ovelhinha mais colorida do que nunca.

 

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