Para Rita, antes de sua partida
Algumas pessoas descobrem sobre a finitude da vida
mais cedo.
Outras, não. Passam anos acreditando que o futuro está
bem longe. Assim como Renato Russo, alguns, como eu, acreditam que que temos
todo o tempo do mundo. Mas no fim, todos alcançamos a certeza de que viver é
breve, é um sopro, é um suspiro.
Assim, me sinto agora, diante do imutável. A certeza
de que nada é eterno e você, “que me deu a ideia de uma consciência e juventude”
um dia vai nos dizer adeus.
E tudo me remete àquela tarde de fins dos anos 70. Eu,
aos 13 anos, você, com quase 30, chegando para tocar no Ginásio Wilson Freitas,
junto com seu padrinho e amigo Gilberto Gil.
Sim, o primeiro show a que assisti foi o seu. E
naqueles idos de 70, coube a minha mãe, sem saber o que fazer para deixar uma
garotinha assistir a um show de rock, pedir a uma tia avó que nos levasse! E lá
estava eu, junto com uma prima e uma amiga, todas menores de idade, acompanhadas
de uma senhorinha, assistindo ao primeiro show de rock da minha vida:
Refestança.
Uma sensação inexplicável de pertencimento a uma
juventude inquieta que elegera como representante uma jovem de cabelos de fogo
e penetrantes olhos azuis, que cantava e dançava como queria, dizia o que pensava,
sem se importar com padrões da época. Eu já tinha então uns 4 LPs da que seria
chamada de Rainha do Rock (rótulo que você nem gostava), dois dos quais
considero lendários e os melhores de sua carreira: Fruto Proibido e Entradas e
Bandeiras, com letras de sua autoria com parceiros importantes como Lee
Marcucci e Paulo Coelho.
Quantas águas rolaram desde aquele longínquo show de
1977. Você, que já tinha um filho, teve mais dois, com seu parceiro de vida,
Roberto de Carvalho. Dominaram a cena musical por décadas, embalando nossos
momentos com pop, rock e baladas. Tornou-se (quase) uma unanimidade nacional.
Porque toda unanimidade é burra, já dizia Nelson Rodrigues e você, jamais se
adequaria à ignorância.
Vestindo fantasias, tirando a roupa, jogando
lança-perfume, dançando como Luz del Fuego, com esse tal de roque enrow, tudo o
que você queria era levar uma vida sossegada. Mas sossegada foi exatamente o
que você nunca foi.
Se em suas músicas, com o tempo, você deixou de ser
tão roqueira e chegou a admitir “ai de
mim que sou romântica”, na vida continuou contestadora, rebelde e jovial.
Não haverá na cena musical brasileira outra Rita Lee.
Como você cantou há tantos anos, hoje somos nós que
descobrimos como é estranho ser humano nessas horas de partida. E como mutante
que você sempre foi, desejo que siga sua vida, fora dos palcos, com sombra e
água fresca, a bênção dos deuses e deusas e toda a sua adorável irreverência. Até
qualquer dia, Lovely Rita. Você será sempre nossa ovelhinha mais colorida do
que nunca.
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