sábado, 5 de agosto de 2023

Virtualíssimo


Ele:
Ontem achei esse post mais antigo e eu, bipolar feito o planeta com seu Norte e seu Sul, senti uma tristeza tão terminal que pensei que nada tem jeito nessa vida.
Descobri que a vida inteira fui um serial lover, com relacionamentos superficiais e narcísicos, um pavão pavoneando a pavoa, um enganando o outro, até se afogar na própria falsa imagem.
O amor de verdade existe no verdadeiro, no real, com todas as faltas e dificuldades, sem delírios.
Eu só fiz isso uma vez na vida e me dei mal. Amei uma mulher com todas as suas asperezas e incompletudes. E me mostrei também humano e incompleto. 
Mas ela queria um homem perfeito para tb se sentir perfeita em um mundo perfeito, Narciso diante do espelho. 
Ela não consegue amar um homem que pode sentir dor e ou medo. 
Porque o amante amado é sempre o fodão, ainda que farsante. 
O serial lover vive da mentira e do engano, essa máscara não me serve mais.
É muito triste descobrir que o amor de verdade não consegue existir na verdade do real.



Ela:
Nossa! Achei o artigo muito bom e o seu texto muito doído.
Do-í-do.
Eu não sei, será que você era um serial lover?
Será que você está certo e reconheceu uma coisa que lá pelos seus 30, 40 anos era verdade?
Será que você está mesmo enxergando a si mesmo?

Sempre vi você assim, como alguém meio narcísico. Sempre me senti meio oprimida pela sua postura e acho que você nunca vai entender como eu me sentia pequena na sua presença, seu jeito de lidar com o sentimento, com a paixão, com a relação homem-mulher. Como você me passava uma sensação de auto-suficiência (será que tem dois ss, agora?). Aquele homem que não precisava nem que se trocasse um botão da roupa. Mas me oprimia mais a sua inteligência, o seu saber, aquilo que você apregoava sempre, como se eu nunca fosse chegar lá. 



Você realmente passou por cima de tudo pra me amar, como vive dizendo, superou meus defeitos, meus qualquer coisa, pra me amar de verdade. Isso é amor, sim. Mas você vive lembrando que eu não merecia esse amor. Você vive apregoando "Eu sou legal". Mas esquece de lembrar que eu também sou. 


Eu estou numa confusão mental há anos, porque gosto de você, você é o meu melhor amigo, você é alguém em quem confio e sei que me quer bem. E a quem eu quero bem, a quem eu jamais vou perder de vista. Isso não é pouco.
Mas não concordo com o dizer de "fria", "narcísica", em busca do homem perfeito. A única coisa que é verdade disso tudo é que eu sou extremamente crítica, eu analiso tudo e todos, e sou meio implacável com quem está do meu lado. Reconheço sim. Também acho que viajo num homem perfeito que não existe, mas esse é meu lado virginiana. Não é um homem perfeito que procuro, é a pessoa perfeita, qualquer pessoa, seja pai, marido, amigo, filho. Não é?


Uma das coisas que mais me incomodam  entre nós é essa ligação virgem X leão. Tudo bem que astrologia é uma balela, mas se a gente pegar qualquer astrólogo acho que ele vai dizer que Virgem e Leão nunca vão combinar...rsss. Essa combinação é fatal. É  unir o debochado àquele que não acha graça em nada. O escrachado ao pedante. O tímido ao espalhafatoso (como diz Caetano). Entendeu? 

Pegue o signo mais narcísico do Zodíaco e pegue o  mais crítico.
Pegue o signo mais vaidoso e o mais modesto, o mais travado.
Pegue o signo que adora elogios e  o mais low profile.
Pegue o que gosta de ser valorizado e aquele que vê defeito em tudo.
Rsss
Somos nós.

Ela: 

Minha amiga Ka perguntou meu signo e disse: - Nossaaaaa. Esse signo sofre. Esse signo soooofre.

Eu minimizei dizendo - Ah, Virgem leva a vida muito a sério, é só isso...

Fiquei brava com ela. Como assim, vai ficar colocando em mim a pecha de sofredora? Que saco. Mas talvez tenha um pouco de razão. Talvez eu persiga uma felicidade que não existe. Sei lá.
E outra, sou filha de Oxum. Oxum chora, chora. Oxum é mãezona, só faz chorar...Não sei o que fazer com esse meu jeito. Minha "sina".
Você tem razão, eu tenho uma marca, preciso me libertar.
Não é moleza a gente ser abandonada a caminho do altar. E o meu primeiro analista, aquele que pegou esse rojão, na segunda vez que fiz terapia com ele me falou pra sair dessa. Mandou enterrar o assunto. Juro.
E no meio da confusão inteira, ele foi bacana com você, sabe. Ele disse: - Fica com aquele que te ama.
Foi quando eu voltei com você, antes da nossa filha nascer.
Mas não tinha aparado aresta nenhuma, nem minha, nem nossa, entendeu?

Minhas amigas me acharam tristes na viagem. Eu estava felicíssima e elas vieram com essa. Costumam me atacar, cortando minhas palavras, debochando de meu jeito, me chamando de recatada, certinha, lerda. Eu fico com raiva, acho que passo uma imagem que não corresponde à verdade. Eu certamente vivi mais do que elas, sei mais do que elas, sou mais inteligente do que elas, e talvez saiba mais de relação amorosa do que a maioria delas.

Eu persigo uma totalidade em minha vida, um conteúdo. E num dado momento na praia, andávamos em quatro. Ta, Ju e Ka passaram quase metade do passeio falando do vestido de noiva da filha de Ta que foi comprado em Miami.
 Eu me isolei, me deixei andar sozinha, molhando os pés no mar e cheguei a chorar. Sabe uma coisa, a vida não é fácil pra gente como nós.

Eu continuaria a reflexão para pensar o que andou dando errado em nós, que você não vê. Mas acho que nunca vai ver. Talvez eu esteja errada. Eu sinto falta de proteção, sim. Isso não tem nada a ver com luxo, supérfluo, comodismo, materialismo. Tem a ver com não ter tanto problema, tanta coisa pra pensar. Ter que viver contadinho, pagando pra trabalhar. Nunca sair do vermelho. Eu não quero que você me sustente, nunca quis homem algum pra isso. Mas eu acho que nós dois estamos errando feio na vida. Fizemos tudo errado. Você, sem se precaver. Eu, nessa escolha insana da profissão, eu devia ter saltado fora quando era tempo. Eu sou muito melhor que isso. Eu e você somos muito, infinitamente melhores que isso.
No entanto, é só o que temos, é nossa única ferramenta, o cérebro. O cérebro pra trabalhar com um monte de gente sem cérebro. 
Beijos


Ele:
Nossa, que bonito seu texto. Viajei em tudo, voltei no tempo e estive lá na praia da Bahia, naquele momento em que você se isolou da conversa fútil e chorou sozinha.
Perdemos muita coisa mas não estamos derrotados.
Ainda temos nossa inteligência, nosso caráter, nossa alegria de viver.

Beijos.

Ela:
Que bom, eu senti que era verdadeiro. Como eu disse, a gente começa a escrever e vai baixando tudo. Não sabia que ia chegar nisso. Só que quem não tem analista acaba se autoanalisando e eu mesma não sabia que ainda estava baqueada com tanta coisa. Na verdade eu acho que somos ETs. Não que eu venha de outro planeta, isso não. Mas eu também não me encaixo bem. Não sei explicar.  
Ontem foi legal, não?

Beijos


Ele:
Eu já li que o mundo não é e nunca foi um lugar muito confortável para espíritos um pouquinho que seja mais evoluídos. Vamos estar sempre desajustados.
Nem por isso podemos perder a alegria de viver, é o que pode nos salvar.
Por exemplo, ontem foi pura alegria, assim seja.

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